100 dias de Viagem – De quantos sonhos és feita?


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A cada novo ano, a cada novo dia, pergunto-me:

– De quantos medos és feita?
– De quantos sonhos és feita?

Eis-nos com 100 dias de viagem. Com um ano a fechar-se, com um ano (novo) a abrir-se às mil possibilidades.
Sempre que acaba um ano eu tento lembrar-me dos desejos que engoli – entre passas e champanhe – à meia-noite de um ano atrás. Este ano superou desejos que não cabem em 12 passas, que mal cabem em mim, por isso partilho – há 100 dias que partilho.
Faz hoje 100 dias, que ganhámos aos medos, que pusemos a nossa casa numa mochila e fizemos do coração bússola.

E já contamos 100 dias. Se o medo tivesse ganho não os teríamos contado.
Se o medo tivesse ganho não saberíamos quantos dias passaram desde 19 de Setembro até hoje. E cada dia contou: como contam os dias especiais, os dias de aniversário, os dias de natal. E nestes 100 dias ela soprou as duas velas dos seus dois anos, partilhamos a mesa da consoada com outras seis pessoas e nelas outras quatro nacionalidades e enchemos as bocas de sabores outros que não o bacalhau, mas os caris – entre o verde e o vermelho – gritavam a nossa bandeira e as rabanadas – na sua receita alterada face aos ingredientes ali à mão – conquistaram (pela boca) todas as bandeiras ali representadas.

E nestes 100 dias enchemos uma mão cheia de países. Trocamos medos por vivências e construímos memórias para o futuro.

Não as teríamos construído, pelo menos não as dos lugares por onde passamos, se não tivéssemos enchido e fechado um saco cheio de medos do lado de lá. E poderíamos não ter fechado, os medos gostam de ser alimentados e alimentam-se facilmente de pequenas dúvidas, de pequenos: ‘cuidado’; ‘e o que vocês têm’; ‘e os empregos’, há vozes que os alimentam tão bem… Mas eu nunca fui dos medos: nem dos meus e ainda menos dos medos dos outros; sempre gostei de os pôr a fugir.

Os medos não percorrem a grande muralha; não sobem o Mekong; não plantam árvores; não lançam lanternas ao céu; não caminham pelos arrozais; não mergulham no oceano pacífico, nem no Índico; não atravessam o caos que são as ruas de Hanói, não tocam nem alimentam elefantes; não se descalçam nos tempos, nem tocam o sino da paz ou o tambor da sorte; não falam com outras pessoas, nem provam novos sabores e não vivem entre montanhas. E nós fizemos isto tudo, eles (os medos) não, têm medo.
Os medos não moram num bungalow no meio da floresta; não trocam trabalho por casa, não atravessam rios para chegar ao lugar onde vivem e não fazem voluntariado com crianças de rua. E nós vamos (desejo tanto) fazer isto tudo, eles (os medos) não, têm medo.

Os medos dormem sempre na mesma casa, na mesma cama que os alimenta, e nós, nos últimos 100 dias, dormimos em 33 ‘casas’ diferentes, em 33 camas diferentes algumas delas – em comboios e autocarros – viajavam do sítio onde estávamos para o sítio onde íamos estar.

Não somos feitos de medos, somos feitos de sonhos, porque só os sonhos se permitem – e nos permitem – tamanha liberdade. E os sonhos atravessam medos, quando há a coragem de um sonho há medos novos que nascem. Nós também os temos: temos medo do regresso, o medo do devir, medo e expectativa (tão grande). E este medo nunca existiria se tivéssemos ouvido o (tão sensato) medo anterior, mas não éramos (não somos) a casa certa para esse medo.
E a cada novo ano, a cada novo dia, pergunto-me:

– De quantos medos és feita?
– De quantos sonhos és feita?

E nunca respondo. Nunca. Deixo que seja a vida – essa que construo todos os dias – a responder por mim, por nós.

De quantos medos são feitos? De quantos sonhos são feitos?

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12 thoughts on “100 dias de Viagem – De quantos sonhos és feita?

  • Raquel Silva

    Os sonhos sem os medos não seriam sonhos também. É a nossa vontade de os concretizar que afasta o medo, é o medo que nos faz querer provar que não é mais forte que a nossa vontade. Parece um lugar comum e é, mas é assim a vida no meu entender.
    A vossa viagem prova a cada sorriso que estão mais próximos do sonho que do medo, que as dúvidas vão ficando para trás com os quilômetros. Que este novo ano traga mais aventuras vossas, que cada estória e fotografia nos façam perder o medo com o vosso sonho.
    Beijinhos grandes, bom ano*

    • Miriam Post author

      Obrigada, Raquel. Sim, sentimo-nos mais próximos dos sonhos do que dos medos e também concordo, julgo que a viagem o diz melhor do que nós. Por isso nunca respondo à pergunta, por isso deixo que seja a vida (e as experiências) a responder por nós e parece-me que elas nos contam muito bem.
      Um ano cheio de coisas boas para essa casa bonita, cheia de livros e vazia de televisão, é assim que a imagino.

    • Miriam Post author

      Merci Jorge et Virginie, on aime beaucoup savoir que vous êtes avec nous*
      Gros bisous pour toute la belle famille depuis la Malasie 🙂

  • Anabela Magalhães

    Que lindos sonhos eu vi nestas fotografias! Que lindos 100 dias sem medos! Sei que muitas vezes me repito mas é bom repetir-me desta maneira para vos dizer o quanto m orgulho de ser amiga de pessoas como vocês! que esta Família Mundo seja, também, minha família. Que lindo é perceber que poso sonhar tanto através dos vossos sonhos! Que posso conhecer tanto através do vosso conhecimento! São as tuas palavras Miriam, as tuas fotos Nelson e, ainda (mas não menos importante) o olhar lindo e curioso da Mia que me fazem sonhar e sorrir e viver1 Já tive 100 dias de sonho e todos eles feitos de amizade, ternura, amor e muita partilha! Que 2016 seja um ano lindo para vocês os três! Adoro-vos e desejo-vos tudo o que a vida pode ter de bom! Três grandes beijos novos como o ano que agora começa.

    • Miriam Post author

      Espero que te repitas sempre muito é sinal que por aqui caminhamos no mesmo sentido e desse lado continuas com esse coração que se alegra com e pelos outros. É uma dádiva. Que o teu 2016 continue a encher-te o coração para que ele transborde assim, em tudo (e todos) os que tocas.

  • Filipe Morato Gomes

    O tempo passa mesmo muito rápido. Ainda “ontem” me estavas a falar dos planos para esta viagem, e agora já se passaram (mais de) 100 dias de aventura! Aproveitem, força nisso! Bj grande.

    P.S. Quase nunca comento, mas gosto mesmo muito de vos acompanhar (belos textos, grandes fotos).

    • Miriam Post author

      É verdade, mais de 100 dias desta jornada que já entendemos ser a nossa melhor definição, o melhor retrato da nossa família.
      Obrigada, gostamos muito (mesmo muito) de o saber. A Luísa vai-nos falando (e partilhando) pelo facebook. Ficamos orgulhosos.
      Beijinhos.

  • Cheila

    Lindo;) faz estes dias 1 ano que nos cruzamos no mundo da escrita e das viagens, já com grandes planos e sem pensar muito nos grandes medos;);) continuo a viajar convosco!!! Bjs

  • Anabela Carmo

    Fotos maravilhosas, a vossa filha é tão linda. Quanto mais leio o vosso blog mais inspirada fico e os meus medos vão ficando para trás. Um abraço.