Adeus FDUP


Pensava que não ia custar nada. Pensei-o até sábado, quando lá fui. Mas saí de lá com as mãos cheia de caixotes, os caixotes cheios: de artigos, aulas, apontamentos, livros, mas era o vazio, o que passou a ocupar as prateleiras, as gavetas, o painel (onde viviam – em postais presos por pins– os locais por onde passei) … era esse vazio, que me ganhava.

Foram sete anos e sete anos não se fecham nem arrumam apenas em gavetas ou prateleiras que agora desocupo, mesmo quando a decisão é nossa (e estamos certos dela). Sei que o que me trouxe até aqui, há sete anos atrás, foi o mesmo que agora me leva: essa matéria não palpável de que são feitos os sonhos, essa que sempre me disse o caminho a seguir – sem tracejado no chão, sem dedo a apontar, só com o bater do coração.

Eu tinha, na altura, 28 anos e metade das turmas que leccionava eram compostas por alunos mais velhos que eu. Cheguei cheia de vontade de partilhar o que sabia, de aprender com quem sabia mais (tão mais), de crescer e de ver crescer. E fiz isto tudo, vi isto tudo.

E nestes sete anos quase cumpri uma vida: casei, tive filhos, viajei, escrevi. Fiz amigos que quero guardar. E vivi (vivemos) histórias que contaremos (cuidadosamente, mas imagino com muita risada à mistura) à nossa filha: entre elas as aventuras dos pais que, após dez anos de namorados e no mesmo ano em que se tornaram marido e mulher, foram também professora e aluno! Sim, ele conhece-me: mulher, mãe, professora; conhece-me: apaixonada e porto de mil vontades; ele conhece-me.

Foram sete anos a percorrer estes corredores a subir e descer estas escadas, entre aulas e intervalos. Duas das vezes desci-as de cabeça, ou terá sido de rabo? Nem sei – foi tão rápido que nem sei – e não, não foi nenhum aluno zangado com as notas que me pregou uma rasteira (pelo menos eu não o vi)! Hoje faço-o sabendo que o corre corre deixará de acontecer. Hoje passo por corredores vazios de pessoas – julgo que não foi por acaso que escolhi um sábado para cá vir despedir-me, o meu inconsciente conhece-me tão bem. Espreitei, uma última vez, uma sala de aula, vazia não vale nem metade, eu gostava delas cheias, cheias de corpos agitados, de olhos curiosos, de bocas faladores (que às vezes pedia que acalmassem). Gostava delas cheias de perguntas, cheias de dúvidas, cheias de vontades.

Nestas salas já moraram partes muito diferentes de mim: o meu nervosismo, sobretudo no primeiro ano, no primeiro mês, nos primeiros dias; o meu medo de falhar, sempre de mãos dadas com a vontade de fazer mais, de fazer melhor; o meu brilhozinho nos olhos e o meu entusiasmo quando falava: de clínica, das vítimas. E estas salas ainda guardam gargalhadas minhas em exercícios de role-playing; e contam algumas repreensões, alguns puxões de orelhas, mas também contam muito orgulho pelo crescimento que vi passar-me pelos olhos, pelas mãos. Guardam a surpresa no dia em que um grupo de alunas me veio dar os parabéns pela minha gravidez – que ainda era secreta até para alguns familiares, mas cuja barriga e sorrisos pareciam já denunciar. Acompanhei muitos do 1º ao 4º anos, sentados (muitas vezes) nas mesmas filas, nos mesmos lugares, tudo na mesma menos as suas mentes: que se foram desabitando (e desabituando) de preconceitos e vestindo em competências de investigação, em reflexão, em espírito crítico. E, não raras vezes, esse crescimento – académico – potenciava um outro – o humano. E fui perdendo alunos (com a conclusão do curso) mas ganhando amigos.

Passaram-me pessoas maravilhosas pelas mãos, de alguns fui, para lá de professora, psicóloga: nos intervalos. E hoje, enquanto tiro os livros da prateleira e enfio em caixotes vou revivendo momentos avulso. Fui feliz aqui (muito). E agora vou, e sei que o que me trouxe até aqui, há sete anos atrás, é o que agora me leva.

As portas que são fechadas com força, com pressa, são portas que fecham histórias mal vividas, por isso, esta porta foi fechada cuidadosa e carinhosamente; foi fechada a bem, por querer (e pela melhor das razões), e estas mãos estavam carregadas de emoção na hora de a fechar, pelo tanto (e tão bom) que ali foi vivido. Desejo o melhor a quem fica do lado de dentro. Continuarei as minhas histórias de portas e janelas abertas, troco o último piso da Rua dos Bragas por ruas que ainda não conheço, nem de nome, o chão do gabinete e o soalho restaurado das salas por outros chãos e até por terra batida que receberá os meus pés descalços, para ser parte. Fecho – orgulhosa e agradecida (a todos e ao todo que ali morou e que mora aqui) – esta porta; abro a do mundo.

P.S. Há pouco tempo recebi uma mensagem (de uma antiga aluna) carregada de palavras generosas e que terminava contando que em conversa entre amigas diziam: “se não formos felizes como a professora Miriam, alguma coisa não estamos a fazer bem”.

E nada me poderia deixar mais feliz do que pensar que contribuí para este acreditar na felicidade – podendo ela assumir mil e uma formas, todas elas muito diferentes -, sobretudo, saber-me parte ativa na vontade de lutar por ela.

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6 thoughts on “Adeus FDUP

  • Raquel Silva

    Deve ser um sentimento estranho, dizermos adeus por iniciativa própria a um lugar onde somos felizes, só quer dizer que no coração já mora a certeza de se ir conhecer lugares ainda mais e mais felizes! A mudança é boa, muitos têm é medo de voar mais alto, não sabem do que as asas são capazes, não querem saber ou alguns temo não saberem que têm asas (o que ainda é mais triste).
    Posso dizer por experiência própria que foi e vai ser sempre uma grande professora, não me vou esquecer que foi a primeira professora a vir dar as boas vindas no primeiro dia de aulas aos alunos de criminologia e até para mim que já tinha terminado uma licenciatura e recomeçava de novo nos bancos da faculdade, foram muito boas aquelas palavras de força para todos nós… As aulas sempre dadas com competência e carinho pelo Saber, a elegancia da professora, a sua maneira de estar tranquila e o sorriso doce, essas boas memórias ficaram sempre, e como são faladas e partilhadas, o Universo ouve e dará à professora Miriam ainda mais alegria, se ter mais é possível 🙂
    Como diz o provérbio chines: ” Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores.”

    🙂
    Vou mandar-lhe um e-mail, com um livro em pdf que acho que pode ajudar na vossa aventura 😉
    Beijinhos grandes

    Esta nova etapa que vai começar vai ser boa 🙂

  • Rita Martinho

    Querida Miriam, tenho de confessar que, de todos os textos, este foi o que mais me tocou. E tocou porque realmente senti na pele (e ainda sinto) tudo o que descreveste. Cada vez que falo na minha passagem pelo Porto conto sempre 7 anos, tal como tu agora contas. E esses meus 7 anos cruzam em tanto com os 7 que agora recordas. Foste minha Professora, minha Colega e hoje (digo-o com muito carinho) és minha Amiga. Não me esqueço daquilo que me ensinaste: sobre as vítimas, sobre as crianças, sobre a psicologia, sobre a clínica… Sobre a vida, sobre os sonhos, sobre a felicidade. E sabes tanto sobre isso… Sabes tão bem ser Feliz! E gosto de o saber… E de o ler em tudo o que escreves. Continua a fazê-lo! Vou acompanhar sempre “de perto” (porque quando se gosta nunca se está longe… Nem aqui nem na China!) E que venham mais 7 anos de histórias para contar… Depois mais 7, e mais 7… E tantas vezes mais 7! E agora, deixo três beijinhos cheios de carinho.

  • Filomena Bessa

    Professora Miriam, não imagina o quão feliz fiquei por ver as minhas palavra num texto seu. A verdade é que é a docente que vou guardar sempre no coração com as memórias da minha passagem pela FDUP. Agora, através de toda a sua partilha, guardo-a também e tal como refere como “impulsionadora da felicidade”.
    Apesar de não saber bem qual o caminho que vou percorrer, ler as suas palavras faz-me confiar que acreditando e lutando vou conquistar todos os sonhos (que tenho e que virei a ter).
    A ideia continuará a que lhe disse “se não for tão feliz como a professora, alguma coisa não estou a fazer bem”. Uma pessoa cheia de brilho, de força, de coragem, serenidade e de amor. Acima de tudo, amor, é a palavra que mais lhe associo.
    Só me resta desejar-lhes uma viagem maravilhosa e dizer-lhe que aguardo, ansiosamente, ler todas as suas palavras e ver todas as fotografias.
    Agradeço-lhe, de coração cheio, por me ajudar a acreditar nos voos altos que as asas permitem. Um beijinho, enorme, cheio de carinho.

  • Nuno Teixeira

    Cara Professora, partilho da opinião das mensagens já aqui partilhadas. Sem qualquer sombra de dúvida foi e é uma referência para todos os seus alunos. Ainda me recordo da primeira aula, do primeiro trabalho, dos sustos (bem pregados!) que me, e acredito que falo pela grande maioria, nos fez crescer, amadurecer e desenvolver enquanto profissionais, mas não só, enquanto pessoas. Ah e dos role-plays (felizmente os seguranças não se aperceberam de quão alto estava a falar ahah)
    Acredito na coragem, na força e vontade, e mais uns tantos sentimentos à mistura, que estão subjacentes a esta nova aventura.
    Desejo tudo de bom, que tudo corra pelo melhor, e que continue a transmitir, ser e a nos habituar ao que sempre nos habituou: excelência, coragem e determinação.
    Não tenho dúvidas que esta nova aventura será um verdadeiro sucesso!
    Muitos parabéns e muitas felicidades, e espero que mais cedo, ou mais tarde, os nossos caminhos se voltem a cruzar
    Foi um prazer ter sido seu aluno!
    Beijinho 🙂