A mãe que traz asas no lugar dos braços – Dia da mãe


– Feliz dia da mãe, mamã. – Diz ela num sorriso envolvente.
– Obrigada, minha querida.
– Mamã..?
– Sim, Mia.
– Quando eu for adulta vou ser uma mamã como tu.

***

3 anos, 5 meses e 26 dias é o tempo a que sou mãe – diz-me a memória do dia; diz a tua certidão de nascimento. Mas eu não sei contar-nos em tempo, nunca nos soube dizer em tempo, como aqui já confessei.
Vou a cada um dos sentidos, uso todas as palavras e é em histórias que te conto e guardo: filha; e é em histórias que me conto e guardo: como mãe.
Ainda hoje te contei que antes de nasceres eu não sabia ser mamã, Mas, desde o teu primeiro dia, aprendemos uma com a outra – todos os dias aprendemos coisas uma com a outra – por todos os lugares do mundo que juntas já descobrimos, enquanto nos íamos descobrindo uma à outra.

Mas eu não sou a única contadora de histórias, tu também me sabes contar, ainda esta semana me contaste em lápis de pintar, sim, desenhaste-me com asas de pássaro e debaixo da minha asa direita desenhaste-te – mais pequenina – e no lugar dos braços trazias umas asas de borboleta. E esses lápis de pintar nas tuas mãos contaram melhor a nossa história até hoje do que qualquer coisa que se possa contar em números, do que qualquer data.
E há dias em que parece que alguém nos ajuda a criar novas histórias, como se levassem os teus lápis de cor, enquanto dormes, e eles lhes contassem dos teus sonhos. Neste dia, quando chegamos a este lugar entre alpes, já tinham pintado o chão de dourado, como as madeixas dos teus cabelos, que lembram as searas e todos os sóis do mundo que juntas já sentimos. Depois, não sei como terão sabido que azul era a tua cor preferida, e espalharam-no por todo o céu. Terão ainda adivinhado que tu o quererias tocar, então, fizeram umas escadas especiais – redondas – que mediam mais do que os nossos tamanhos juntos, por isso, terão também sabido das nossas asas – as minhas de pássaro e as tuas de borboleta. Juntas acreditamos em tudo e subimos.

Lá em cima eu abri os meus braços e tu repetiste o gesto, os sorrisos já vinham abertos.
O vento veio juntar-se a nós, misturou-se entre os nossos cabelos, depois passeou-se pelos nossos vestidos e pô-los a dançar. Fechamos os olhos, temos esse segredo: sempre que queremos sentir melhor o que está a acontecer fechamos os olhos.

E lá estávamos nós, as duas, braços abertos ao céu, lá em cima, mais perto dele. Os vestidos e cabelos que esvoaçam. A trocar o silêncio por gargalhadas fortes, a estendermos a mão à felicidade, levando-a, mão-na-mão, até onde ela não sabia poder ir. E tu, na falta dos lápis, a quereres guardar-me em imagens, talvez para me mostrares mais tarde as asas que só tu vias.

Ser mãe é Ser mais e há muito pouco que eu possa desejar além do vivido, chega-me que continues a ser essa menina feliz, com asas de borboleta e eu a tua mamã – que traz asas de pássaro no lugar dos braços. E que a nossa história se continue a fazer de dias assim felizes, até fecharmos os olhos.

***
– Obrigada, Mia, por seres a minha Mia, por seres a nossa Menina (Mundo), quando eu for pequenina outra vez quero ser como tu.

 


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