Mercado de Rua (Marché Lausannois)


São as ruas – as mesmas de todos os dias – que aos sábados se renovam em gentes e se enchem de sons; ouvem-se todas as línguas e o português é a língua dominante: ou os nossos ouvidos fazem escuta seletiva aos fonemas e às palavras bem nossas.

São ruas cheias, enchem-se de todas as cores: são tomates, são cerejas e mirtilos, são courgettes e beringelas, são especiairias mil.

São flores e de todas as flores ela escolheu os girassóis. Pegou-os e passeou-se com eles.

Neste rodopio de gentes, cheiros e sabores ela parou: tudo parou (em nós) e à nossa volta a roda viva continuava a girar. As pessoas, os sons, os preços e, de novo, as pessoas e as suas pernas em todas as direções, e ela parada, nós parados (logo atrás).

Ela ouviu-os, parou para os ouvir: aos violinos. Não precisou de nos sentir com ela para ficar. Ficou. Parou e parece ter feito ouvidos de todos os seus sentidos. Eram eles (os violinistas) e ela (a sua ouvinte), e entre eles os dedos que tocavam as cordas, a voz dos violinos e os ouvidos gratos por aquela nova descoberta: era a primeira vez que ela ouvia o som do violinho; e ela sabia-o, ela parou para não ser pernas a andar, nem olhos a ver; parou porque parada viveu intensamente aquele momento que lhe ofereciam. E os seus ouvidos podem ter sido os mais pequenos que ali passaram, mas foram maiores no ouvir, no receber e no retribuir: apenas por ter parado, por ter ficado, por ter ouvido.

Ela fez-nos parar para ouvir as cordas dos violinos. É, de novo, ela a parar-nos, a desacelarar-nos dos dias. Obrigada, sempre.
Ficamos (como sempre ficamos nas suas primeiras vezes) no nosso lugar atrás dela: e ela não sabe da beleza desse lugar, da forma como a luz do sol a desenha, mesmo à nossa frente; da forma como o seu corpo, repete (em mil) a beleza do que ouviamos. E atrás de nós pararam mais e mais pessoas, também ouviram – com ela; por ela – as cordas dos violinhos e o som que nelas vive.

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10 thoughts on “Mercado de Rua (Marché Lausannois)

  • Raquel Silva

    Não sei quem conta melhor a história, se as palavras, se as imagens, mas acabo por entender que se completam, absorvem a nossa atenção, como um livro de fadas ilustrado onde podemos sonhar melhor se nos mostrarem a beleza nos olhares e cores.
    Adorei! A Mia cada vez mais a compreender porque é uma menina mundo, e o mundo realmente fica mais bonito quando ela o diz e olha!
    Beijinhos ** bons passeios 🙂

    • Mamã-Mundo Post author

      Raquel, já tinha dado pela falta e pela falta das análises para lá do que escrevo. Gosto das duas por aqui 🙂
      Que bonita descrição, um livro que imagino ela vá desfolhar e assim conhecer a sua história, desde os dias de pequenina.
      ‘E o mundo fica mais bonito quando ela o diz e olha’: e eu sei que a mãe desse lado sabe como a forma de eles olharem e dizerem nos toca.
      Beijinhos.
      Bom exames (se ainda for o caso), deste lado também ainda andamos em correções e avaliações (mas os passeios ao fim-de-semana compensam as semanas duras).

      • Raquel Silva

        E eu já tinha saudades de me sentar e ler com atenção cada palavrinha! Porque estes textos e imagens requerem uma leitura concentrada, mais de com os olhos, com a alma!
        Obrigada, a maratona já acabou, acho que já não aguentava ler nem mais uma folha! Agora só olhos para a viagem da menina mundo!
        Bom trabalho!! Sem claro nunca descurar os passeios e as histórias que todos aguardamos.
        Esqueci-me de referir no anterior comentário que o vestidinho da mia é qualquer coisa de lindo *.*
        Quando empreenderem a viagem pela China posso dar-vos algumas fases básicas em mandarim, estudei a língua três anos, embora a distância seja um bocadinho difícil pois a língua tem 4 tons fonéticos sendo que cada palavra tem o seu, várias palavras iguais com tons diferentes equivalem a palavras diferentes, mas penso que aquelas frases básicas será fácil 🙂 é uma língua magica, um mundo no qual se entra devagarinho, mas com certeza o ambiente rico daquele povo e cultura vai facilitar-vos a aprendizagem, vale muito a pena conhecer a língua, cada carácter conta uma história:)
        Beijinhos

        Ps- há uma “professora” chinesa óptima que tem um canal no YouTube e também FB, etc, explica de uma maneira muito simples, http://youtu.be/zNoOdNvdZlg , o canal dela no YouTube é muito bom, pode ser uma boa ajuda 😉

        • Mamã-Mundo Post author

          🙂 que privilégio, prometo continuar a escrever.
          É um vestido já muito usado, de renda que eu também adoro e se tiver mil filhas (meninas) todas o irão usar :).
          Sim, queremos essas frases básicas, a Raquel é uma caixinha de surpresas e fiquei bem curiosa.
          P.S. Irei espreitar o canal mal possa.
          Beijinhos.

  • Anabela Magalhães

    E que bonito é ver estas imagens e as suas palavras! Quase que consigo ouvir os violinos!!! A Mia já tem essa magia de gostar do que é belo! Ela está rodeada de pessoas e coisas bonitas! Mas mais importante é que nos vai fazendo recordar que é preciso ouvir e ver o que é belo! Conseguir que os adultos prestem atenção deixando-se levar, sem pressas, pelo maravilhoso som do violino que emanava as suas notas qual perfume em forma de melodia!! Que a nossa Mia continue a prestar atenção, e a chamar a nossa atenção, para algumas coisas que já nos esquecemos de apreciar como deve ser!!! Beijinhos para os meus deliciosos amigos e para a nossa ainda mais deliciosa Mia.

    • Mamã-Mundo Post author

      É verdade, querida Anabela, a pressa dos dias distrai-nos, muitas vezes, desta disponibilidade para ver, ouvir, sentir. E ela lembra-nos, ela: que ouviu o som do violino pela primeira vez, lembra-nos como os ouvidos devem parar para receber e agradecer. Lembra-nos da magia das primeiras vezes. E nós vamos repetindo esse encantado, uma e outra vez. É ela: tu sabes. E nós com ela enviamos-te um beijinho, cheio de carinho.

  • Luisa Carolina

    Andamos tão atarefados e apressados, que esquecemos de prestar atenção no que nos cerca. Bonito ver no que as crianças prestam atenção: no que lhes alcançam os dedinhos. E isto parace-lhes tão mais precioso do que o que está lá longe…
    Bom contar com estes exemplos diários para trazer-nos de volta a isto: ao prestar atenção nas pequenas (grandes) coisas.
    Ontem, durante o almoço, escutei duas mulheres a conversar. Diziam que filhos dão trabalho, despesas e fazem-nos abdicar de muitas coisas: uma visão bem pessimista da maternidade. Já agora, enxergo de outra forma: a maternidade dá aquilo que consegues ver. Se enxergas dor, abdicação; assim o será. Mas se extrai-lhes a poesia, a magia; se observa atentamente os exemplos das crianças, melhor ensinamento não há.
    Um beijinho à família 🙂

    • Mamã-Mundo Post author

      Verdade, querida Luísa, esquecemos-nos como é deixarmos os nossos sentidos beberem o que nos é oferecido. Ela (e eu) trataremos de te (re)lembrar. E é tão acertado o que dizes: a nossa vida é uma construção de narrativas, se escolhermos uma narrativa de sacrifício e abdicação, tudo vai ser interpretado, vivido e significado nessa narrativa; se escolhermos a do encantamento pelas primeiras vezes, pela descoberta, pela ternura, pela poesia, então será aí que encontraremos significados para o que vivemos. Julgo que as minhas partilhas denunciam, uma a uma, a minha opção. Um beijo da família <3

  • mamã cereja

    Fotos tão lindas!!! Por cá também adoramos mercados 🙂 E é tão bom andar ao sabor do tempo das crianças, ainda bem que pararam ao som dos violinos, ao ritmo da menina mundo.

    • Mamã-Mundo Post author

      A viagem será mesmo assim, mamã cereja, respeitando os seus ritmos e começo a acreditar que vamos aproveitar ainda mais os sons, os cheiros, os sabores e o encanto de cada novo sítio, afinal estaremos todos a viver primeiras vezes. Um beijo desta casa, para esse amontoado maravilhoso 🙂