Morámos um mês na selva do Bornéu


Era uma vez uma casa de madeira – escura – que se erguia entre o verde denso. Apenas de barco se chega lá, um pequeno barco azul claro, onde cabemos nós e todas as nossas coisas. Barco atracado: da terra, enlameada e escorregadia pelo caudal do rio, saem escadas feitas de restos de troncos e o caminho que dá à casa é ladeado por folhas pintadas de rosa, pela natureza. Bem-vindos ao KuraKura Homestay, a sul de Kuching, nas colinas da ilha do Bornéu e perto do cume da montanha que faz fronteira com a Indonésia. Foi nesta casa e quinta orgânica, escondidas nas colinas ao longo do rio Sarawak que tivemos a nossa primeira experiência de trabalho em viagem – em troca de alojamento e alimentação.
Fomos acolhidos por uma família: o Lars, a Liza e as suas filhas Froya e Fiona e aqui morámos, durante um mês: em casa (em Portugal) tínhamos máquina de lavar roupa e aqui: lavámos a roupa à mão, estendemos e corremos contra a chuva, para a apanhar a tempo. Em casa tínhamos máquina de lavar louça e aqui: lavámos a louça à mão, deixámos escorrer e limpámos com um pano. Em casa a Mia não tinha irmãs e aqui ganhou duas irmãs – uma mais velha, a Froya, e uma mais nova, a Fiona – e sentiu, pela primeira vez, o que é ter uma melhor amiga. Atravessou a sua primeira ponte suspensa de mãos dadas com ela, no mesmo dia em que pôs uma mochila às costas, e foi a Froya a primeira a mostrar-lhe a magia das bolas de sabão. Em casa vivemos na cidade e não temos galinhas e aqui: corremos atrás delas e sabíamos de onde vinham os ovos que comíamos. Em casa tínhamos água quente a sair da torneira, sempre, e aqui: tomámos banho de água fria, água da chuva que se acumulava num alguidar e que aquecíamos para dar banho às três pequeninas. E também não havia banheira mas sim uma bacia, onde a Mia cabia inteira. O café, que bebíamos de manhã, tinha sido torrado num microondas reinventado, diante dos nossos olhos, no dia anterior. Em casa, era de cimento que se fazia o chão assim que batíamos a porta da rua e era de carro que nos deslocávamos, aqui: há terra que se espalha até deixarmos de ter chão firme e passarmos a ter a água do rio sarawak, que de barco nos permite ir e voltar. Em casa conhecíamos todos os nomes de todos os frutos que comíamos e aqui: comemos frutos que nem sabíamos que existiam, que mal sabemos pronunciar o nome, mas que nunca esqueceremos ao que sabem. A Mia ganhou um gato que partilhava com ela as tardes, conheceu o escaravelho e as finas cobras, no trekking de seis horas, selva adentro. Experimentou as galochas da Froya e encheu o regador para regar as plantas, queria trabalhar, como nos via fazer.
E no final do dia: baloiçávamos, suspensos num baloiço na árvore; descansávamos: no hamac do alpendre, esse mesmo alpendre onde os olhos se enchiam de verde e, às vezes acompanhado de um copo de vinho, partilhávamos histórias convosco.
Num dos fins de semana visitámos a vila mais próxima, Kampung Semadang, a terra natal da Liza, conhecemos os avós da Froya e da Fiona e os tios e primos; conhecemos as senhoras e os senhores, as casas, as roupas estendidas e os banhos de rio. Almoçámos num restaurante local, ajudámos a carregar tábuas e voltámos entre chuvas e trovões.

Este mês foi carregado de primeiras vezes, de coisas novas ou de um regresso a formas antigas de fazer. Olhando para este mês fica a certeza de precisarmos de muito menos do que pensamos ser essencial: as máquinas que lavam, roupa e louça; a água quente, a máquina e as cápsulas de café… são apenas artilharias das quais nos armamos na pressa dos dias e dificilmente saímos a ganhar nesta perda de implicação de nós no processo e caminho até ao pretendido.

Daqui saímos para Kuching, é de lá que vos falo no próximo post.


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