A nossa Portuguesinha em Goa


[Enquanto esperamos o autocarro para Pangim].


As ruas de terra servem-lhe perfeitamente nos pés. Quer entrar em todas as casas, como se fossem a casa dos avós. Aos rostos: sorri, como se os conhecesse a todos.

Neste dia ela vestiu o seu vestido especial, o único que junta amarelo, laranja, vermelho, verde, azul, branco e preto, para trazer todas as cores consigo, em si. Sorri, como todas as manhãs. Mas era uma manhã especial: para ela, para mim, para nós.

Demorei 35 anos a chegar à Índia, ela, de apenas 2, está aqui, a vivê-la comigo.

Junta os braços ao peito, num sorriso disfarçado de ar sério. Abre os olhos: grandes. Passeia-se pelo alpendre da primeira casa que a tocou- aí descobre, atenta e curiosa, os encantos e recantos da arquitectura colonial. Todo em pedra, que é o melhor para o calor, encosta-se pousando apenas um antebraço e disfarça um novo sorriso. Namora a porta que mede mais de três vezes o seu tamanho.

Sentámo-nos nas escadas, enchemos os minutos de palavras. Sentimo-nos em casa. Eu sei, ela sabe, ele sabe.

Foi aqui, pela primeira vez que consegui vê-la menina. Não sei: se pela expressão; se pelo cabelo apanhado; se pelas cores fortes do vestido ou as mãos caídas nos seus braços decididos:

– Pareces-me tão grande: aqui, Mia

-Pareces-me tão forte: aí , Mia.

Depois olho, com mais cuidado, demoro-me outra vez nos braços, nos traços subo-te aos olhos: curiosos, grandes, doces. Como no primeiro dia. Minha mulherzinha-menina-bebé.

Estamos na Índia e o que me liga aqui é tão forte que me é impossível não me arrepiar a cada linha que convosco partilho. Vou contar todas as histórias, devagar, para as poder saborear: palavra a palavra.

[Chegou o autocarro, temos de ir].

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