O cavalo que não gostava de courgette


Menina Mundo-cópia

Eu tenho medo. Ela não. Eu tenho medo dos medos que ela não tem. E hoje falo-vos do medo – que ela não tem – aos animais. De tudo o que ela mais gosta julgo que apenas nós estaremos à frente dos animais (pelo menos gosto de acreditar que estamos no topo). Corre para os cães – para todos os cães – o tamanho pouco conta, gosta de os afagar entre mãos: mesmo que elas desapareçam nos mais peludos. Todas as manhãs quer ver o galo e os gatos que se passeiam pelo quintal da casa das traseiras.

E, nos últimos dias, os seus olhos encheram-se de um cavalo: um cavalo num descampado, que conseguimos avistar desde aqui. Enquanto tomamos o pequeno-almoço, com as portadas da varanda bem abertas, vemo-lo: ela estica o pescoço para o ver melhor. Ao almoço, lá está ele de novo, e, nesse mesmo dia, ao jantar – com a luz que apenas os jantares de verão têm – ainda lá estava. E no dia seguinte. E no dia seguinte.

O cavalo parecia fazer parte das nossas refeições, como se os dois – ela e o seu cavalo – estivessem sentados à mesa: ele – no descampado de onde ela não tira os olhos – bebe, do balde azul no meio do terreno; ela – na mesa de onde o espreita, com olhos e pés e braços – bebe do seu copo, repetindo o gesto: como se imitasse o seu irmão mais velho.

Pensamos: o que nos afasta do cavalo? Uma porta: que abrimos. Dois lanços de escadas: que descemos. Duas ruas estreitas: que percorremos. Um muro baixo: que avançamos. Somos nós, com ela ao colo, e o cavalo.

O Cavalo, já não um cavalo, ao perto (como gosto de ver) continua pintado de castanho caramelo, mas vemos-lhe os olhos rodeados por moscas, que o inquietam. Oferecemos-lhe seis cenouras e uma courgette. Comeu as primeiras. É um cavalo que não gosta de courgette. A Mia deu-lhe as cenouras à boca, uma a uma, sem qualquer receio.

E eu a aprender com ela: eu que aos 30 anos toquei e montei o meu primeiro cavalo e fi-lo durante um ano, para pôr o meu medo, dos animais, a fugir. Eu que ali, estava com medo, quando via a sua mão, pequenina, estendida a aproximar-me dele e da sua boca; quando o via a ele esticar-se e aproximar-se dela e da sua mão, para receber a cenoura que lhe oferecia. Sou eu a aprender com os dois.

Chegamos a casa, e ela voltou a dizer-lhe adeus, pela varanda de onde o vê. Sei que não vai gostar quando, daqui a nada, a noite ganhar ao dia e a persiana se baixar. E, ainda que não saiba contar as horas, imagino-a acordar carregadinha de vontade de abrir a persiana, afastar os cortinados, e fazer-se à varanda, para dar os bons dias ao seu cavalo.

Menina Mundo


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7 thoughts on “O cavalo que não gostava de courgette

  • Raquel Silva

    Que doçura de foto!
    O cavalo é um animal com um espírito tão nobre, tive já o privilégio de poder ter tido dois, e a maneira delicada como estão sempre entregues à natureza, sempre tão pacientes, não é por acaso que os índios admiravam os seus espíritos guerreiros.
    A Mia fez a melhor escolha ao desde cedo se ligar aos animais, e eles certamente que pressentem o seu espírito doce de menina!
    Tão bom que vocês lhe proporcionem estes contactos!

    Um beijinho grande e um bom são João!*

    • Mamã-Mundo Post author

      Que sortuda, Raquel. Dá-se a volta aos medos (os meus) pela natureza (a dela). Ela gosta de animais: parece o mais doce, o mais certo e faz-me todo o sentido, portanto, nunca conseguiria impedi-la desta interação que claramente é benéfica para todos.

      Um enorme beijinho.

  • Luisa Carolina

    É um contra-senso: estes pequenos sem medo algum e nós, crescidos em tamanho e em força, amuados de medo.
    Mia é que está certa: espreita os amigos animais e lá vai dar-lhes comidinha à boca pois nem sequer sabe o que é perigo.
    Acho lindo deixares Mia ter contato com aquilo que lhe dá (ou dava) medo, professora. Infelizmente são tantos os pais que transmitem seus medos aos filhos sem oportuniza-los junto à vida.
    Que Mia continue alimentando os amiguinhos, sem medo, e entregando esta coragem a tudo o que pela vida encontrar.
    Um beijinho à Mia aventureira e mamãe destemida.

    • Mamã-Mundo Post author

      Luísa, tocaste exatamente no ponto de uma amiga minha, não o tinha pensado assim, mas sim, é verdade inconscientemente é fácil passamos-lhes medos (os nossos, os de todos), confesso-me atenta a essas questões e sim, o que estou a fazer é exatamente o oposto, não apenas não lhe passar, mas combate-los com e por ela.

      Muito obrigada por palavras tão especiais e uma leitura tão atenta, que vê para lá do que é dito.