O passarinho: que não sabia voar


Menina MundoNo regresso a casa ouvimo-lo (no jardim, à beira da árvore): ela ouviu-o. Esta encolhido, sozinho, num piar – tão pequenino quanto ele – que diz o seu sofrimento. Ela fez-se mais pequenina, para o ver melhor.

Terá caido do ninho, ainda antes de saber voar.

Pequenino, tem partes de pele a descoberto, partes onde a penugem ainda não teve o tempo de nascer.

Pegamos-lhe, demos-lhe água, tivemos de ajudá-lo a beber, parecia assustado: da queda, do mundo para lá do seu lugar seguro. A Mia, que apenas via um passarinho nas mãos do pai, queria pega-lo e ofereceu-lhe a sua bolacha de arroz (que não percebeu maior que o passáro).

Não parecia magoado, apenas perdido, à procura da mãe, do pai, do lar, e sem saber voar, sem saber das asas que trazia consigo, desde o primeiro dia.
Pusemos os olhos à procura do ninho, mas a árvore – aquela que está mais perto do local onde o encontramos e que guardará a sua casa e a sua família – é tão alta e de uma densidade que não nos permite ver para dentro do seu corpo de ramagem.

E eu sei que os pássaros, para ensinarem os seus filhotes sobre a importância de voar, se afastam do ninho, enquanto os alimentam, e sei que eles, muitas vezes caem dos ninhos, e que essas quedas se suavizam e depois já não caem e exibem as suas asas lá no alto. Sei, mas este terá caído ainda antes de saber voar, ainda antes de saber das asas e para que servem.

O que fazemos: se o deixarmos ali pode morrer, de mil maneiras, mesmo antes de se sentir pássaro, mesmo antes de experimentar o voo, de planar no alto; se o levarmos estaremos a roubar-lhe a possibilidade de os pais o virem buscar e de o carregarem, debaixo das suas asas, até casa. E eu nunca poderia guardar um pássaro numa gaiola.

Menina Mundo

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2 thoughts on “O passarinho: que não sabia voar

  • Anabela Magalhães

    E afinal o que aconteceu com esse passarinho perdido do seu ninho? É raro sobreviverem! Também não costuma adiantar levá-lo para casa – ainda são demasiado pequenos para que lhes possamos prestar auxílio! Mas é mais uma coisa que a Mia aprende! Mais uma coisa nova que ela viu! Nem sempre a vida é justa! Mas acho que isso ela não vai perceber por enquanto! Beijinhos para vocês três!!!

    • Mamã-Mundo Post author

      Querida Anabela, como disse a minha amiga que mais percebe de animais, poderia tê-lo levado para casa e posto numa caixinha de sapatos com furinhos para respirar. Dando-lhe água e pão húmido só o tempo suficiente para ficar mais forte, mas ele mostrou-se mais forte assim que o pousamos. Ficamos a observá-lo algum tempo e mais tarde estava já perto de um outra árvore, talvez fosse aquela o lugar do seu ninho. Não vimos os pais a abraçá-lo mas tenho a certeza (e o desejo) que tenha sido assim o desfecho da história. A Mia adorou tocar e ter um passarinho assim tão perto. Beijinhos nossos.