Phnom Penh – pelos nossos olhos


[Um bolo, duas velas, balões coloridos, as nossas mãos vazias de coisas e cheias de: tempo para ti e de tudo o que a tua imaginação pode criar – tudo. Os nossos olhos a contarem histórias do teu primeiro dia, os nossos olhos a mingarem com a emoção. Sopramos as velas. Parabéns, filha.]

Vamos. Subam para o tuk-tuk e venham daí conhecer Phnom Penh, a cidade onde a Menina Mundo passou a ser mais menina, menos bebé.
Quem tem viajado connosco sabe que somos de passeios a pé, de ruas estreitas, de bicicletas onde a Mia, no lugar de trás – numa cadeira de bambu -, vai trocando o silêncio dos arrozais pelas suas canções de criança e gargalhadas cheias: por tudo, por nada. Em Phnom Penh fomos alternando os pés no chão com o embalo do tuk-tuk, aqui as casas pelas ruas não têm ordem numérica, a casa nº2 pode estar entre a casa nº19 e a casa nº50, o que torna qualquer morada um enigma sem fim e faz dos condutores de tuk-tuk os melhores decifradores de enigmas e os melhores amigos de quem acaba de chegar à cidade.
NPMM0422Vivemos aqui uma espécie de ambivalência que é apenas uma repetição da ambivalência que a cidade nos exibe. Parece construir-se de opostos, de forças antagónicas que a dividem e separam, como as paredes separam as divisões de uma casa. De um lado, o ar de cidade grande: a avenida Sisowath Quay, de passeios largos que se espalha pelo comprimento do rio, onde se exibem bandeiras de todos os países. À noite, a praça em frente ao Palácio Real engana a pobreza, com os seus dourados brilhantes; engana o relógio ao encher-se de luzes e gente. Do outro: temos as ruas pequenas; os mercados locais que se estendem para a rua, com tendas que todos os dias se montam e desmontam; as pessoas que todos os dias por lá passam para comprar o que consomem no próprio dia; todas as crianças que passam o seu tempo a tentar vender aos turistas, deste lado vamos perdendo o dourado, as luzes e vamos conhecendo a pobreza, por vezes, extrema. É nesse momento que conseguimos ver que alguns dos tuk-tuks estacionados nas bermas não são tuk-tuks: são casas de família inteiras que lhes retiram os bancos e confinam a vida doméstica àquele espaço: pai, mãe e filhos. Sim, a cidade está entre a riqueza ostentadora dos telhados de ouro que se avistam desde longe e a pobreza pelas ruas, pelos olhares, pelas crianças que vendem no tempo de brincar, no tempo de ir à escola.
Phnom Penh é essa cidade entre: os balões coloridos que brincam e saltam por entre as mãos das crianças e esses outros balões, seguros nas mãos do menino-balão, que os vende em troca de moedas que trocará (mais tarde) por alimento.
NPP_2822 NPP_3015 NPP_2999 NPP_3003Primeira paragem: Wat Ounalom, foi por acaso que demos com este que é um dos templos budistas mais importante da cidade. As sua portas abertas convidam-nos a entrar.
De imediato nos saltam aos olhos os telhados desenhados a ouro e vermelho, os pagodes prateados, as paredes amarelas e as janelas em contornos castanho-madeira e amarelo-ouro. E sente-se a história feita de números grandes: 500 monges viviam ali, mais de 30.000 obras estavam ali guardadas, na biblioteca do Instituto Budista que o templo acolhia, até ser devastado durante o Regime do Khmer Vermelho (1975-1979).
O restauro fora (continua a sê-lo) cuidadoso e respeitador e, de novo, o templo volta a ser casa dos monges, é dali que, todas as manhãs, esses meninos de cor-de-laranja saem, para o alms-giving. Continua também ali, bem guardada mas visível aos olhos de quem por lá passa, a maior das relíquias – a sobrancelha de Buda.
Do lado de fora, o calor obriga à sombra, um pedaço de chão ou um degrau de escada servem, como bem sabe o cão que por lá anda (esperto). Num destes lugares, onde descansamos os olhos e a pele do sol, está uma (outra) mãe. Ali, sentadas no mesmo degrau, olho-nos e vou subtraindo as diferenças culturais, religiosas e todas as que consigo encontrar ou deduzir. Tão diferentes. Tão iguais. Trocamos olhares, entre nós, sobre os nossos filhos, e aqui, neste país distante que é o Cambodja, como aí, nesse país onde nasci, quem sorri aos nossos sorri-nos a nós; mais do que se realmente nos sorrisse a nós. Demorámo-nos aí, em conversas sem voz; em conversas que dizem tudo o que a palavra não diz.
NPP_2820 NPMM0332 NPMM0322 NPMM0277 NPMM0285 NPMM0253 NPMM0252 NPMM0274 NPMM0317 NPMM0319 NPMM0324 NPMM0327 NPMM0290Os dias passam, entre mercados (Pshar Kandal e Pshar Thmei ), passeios lado a lado com os monges, um jantar especial entre amigos que trouxemos do Mekong e outros que conhecemos na China. Hoje é dia de visitarmos o Museu Nacional do Cambodja. Os jardins exteriores e o pátio interno justificariam já a visita, para lá de toda a história ali contada e guardada, sendo um dos maiores repositórios da arte Khmer.
Enquanto a Mia percorria (descontraída) os seus corredores internos, à procura do Ruca e do Riscas!,  nós éramos dois pais em sobressalto, a cada tangente que ela desenhava com cada escultura Khmer.

Devíamos ter feito o seguro de responsabilidade civil! – comentámos, entre dentes.

Os edifícios transpiram a arquitectura Khmer, mas o púrpura que se espalha pelas paredes e fachadas levou-nos até à China e às cores da sua cidade proibida.

No átrio central há pequenos lagos, percorremo-los, a quatro pés descalços, até pararmos para contarmos nenúfares nos intervalos das cócegas e gargalhadas que se lhes seguem… E é ali que, com o papá, ela estuda o mapa para nos decidirmos em direcções e passos. De passos decididos, toma a dianteira, nós seguimos-lhe as passadas, o coração bate mais rápido do que os pés pousam o chão:

Ela tem dois anos, que crescida – comentamos entre nós.

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Quando o sol deu lugar à lua, conhecemos as noites à beira-rio. Primeiro ouvimos  um ruído estridente e, passados alguns segundos, este deu lugar a música, saída de uma aparelhagem e colunas, tudo pousado no passeio largo. Em frente está um grupo de pessoas, alinhadas na horizontal, atrás uma nova fila de gente e à frente, desordenadamente, algumas crianças.
Aeróbica. Começou por ser aeróbica, todas as noites um conjunto de pessoas se reúne ali, para o seu exercício do dia, nós juntámo-nos a eles e eu não pude deixar de me rever em Jane Fonda. Seguiu-se uma dança tradicional do país e os nossos olhos dividiam-se entre o baile ao ar livre e a bola que a Mia nos ia lançando, com os seus pés cheios de energia.
NPMM0340 NPMM0624 NPMM0630Mesmo ao lado, entre a estrada e o passeio, distribuem-se bares ambulantes, com luzes néon que fintam o escuro da noite.
NPMM0618E a nossa última paragem é aquele que ocupa o primeiro lugar da lista de locais a visitar em Phnom Penh , o Palácio Real.
O bege e o azul-céu cobrem as paredes até lá. O calor faz-se sentir aqui mais do que alguma vez sentimos em toda a viagem.
Eu levo o meu vestido preferido – até aos pés -, levo o lenço que me cobre cabeça e ombros e ainda trago o sling e a Mia colados a mim. Nada disto os impediu de me impedirem de entrar. Comprámos a t-shirt que abria a porta do palácio (sim, que vos sirva de dica, quando lá forem levem uma t-shirt que vos tape ombros e braços até aos cotovelos).  Entrámos, mas esta primeira não foi a única passagem que nos foi negada, pelos jardins há placas que proíbem caminhos, o palácio continua a ser residência da família real e, por isso, uma boa parte não é de acesso ao público.
NPP_2818 NPP_2835 NPP_2862 NPP_2850 NPP_2856 NPP_2865 NPP_2868 NPP_2873 NPP_2860 NPP_2888 NPP_2913 NPP_2903 NPP_2934 NPP_2931 NPP_2944 NPP_2957 NPP_2959 NPP_2916 NPP_2940 NPP_2963 NPP_2969 NPP_2986 NPP_2988 NPP_2892O sol forte torna os dourados ainda mais dourados. A Mia brinca com a sua sombra, desenhada ao sol, e pede ao papá para a fotografar. Nos intervalos das fotos enche-se de água, o calor é tanto que ela também a oferece aos animais-estátua com os quais nos cruzamos:  – Tens sede? – pergunta-lhes. Acreditando ser impossível uma resposta negativa, a avaliar pela sede que ela tem.
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À saída oferecemos-lhe um balão vermelho. Um reforço pela sua paciência num palácio pouco amigo de crianças, aliás, pouco amigo de quem quer que seja: muita gente, muito calor, poucas sombras, guardas que não sabem sorrir; descalçar para entrar em cada edifício, silêncio enquanto lá se está. Sair e voltar a calçar…
Passeamo-nos com o seu balão às bolinhas e lanchamos tangerinas – com o rio atrás de nós e o palácio mesmo em frente. Nessa noite, ela quis levar o balão para a cama, adormeceu com o fio do balão na mão e o balão suspenso, quase a tocar o tecto. Adormeceu com o sorriso de quem guarda um segredo que mais ninguém sabe.
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Espero que me contes, assim que acordares, da maneira que só tu contas histórias, com as mãos e o corpo todo a dizer coisas que me fazem chorar de alegria – sussuro-lhe com o beijo de boa noite.

Juntos ficamos a olhá-la:

Ela tem dois anos, que crescida – comentamos entre nós, num abraço, num sorriso, numa lágrima feliz.


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4 thoughts on “Phnom Penh – pelos nossos olhos

  • Deolinda Melo

    Olá Miriam.
    Sou V/ seguidora há muito pouco tempo. Li avidamente todos os textos colocados no blog. São fantásticos. As fotografias são de uma beleza incrível. Ao acompanhar-vos através dos testos e das fotografias, parece que eu própria “estou” convosco nessa V/ viagem extraordinária. A Mia é “uma delícia”. Acredito que apesar de pequenina, tudo o que ela está a viver e a experienciar, vai ficar guardado no seu ser. Um grande beijinho de parabéns para ela. Fico ansiosa por novo post.

    • Miriam Post author

      Deolinda, seja bem-vinda.
      Que feedback tão bom, ler assim todos os posts é quase como ler um bocadinho de um livro todos os dias, e neste, um bocadinho de nós.
      Também acreditamos nisso, ‘vai crescer com tudo isso enraizado nela’, é assim que costumo dizê-lo, para ser usado no momento certo. Muito obrigada, este texto data da nossa passagem por phnom penh, mas, curiosamente, no momento em que nos escreveu esta mensagem ela estava também de parabéns, fez ontem 2 anos e meio.
      Um beijinho especial.
      Temos novo post para sair muito em breve 😉