Preciso de ti (na sua voz pequenina)


Menina Mundo

Há palavras novas a crescerem-lhe na boca a cada dia. E as frases, feitas de duas ou três palavras, começam a sair-lhe, cheias de vontade de se fazerem ouvir.

Acordamos e pareceu-me ter ouvido a nova palavra do dia: preciso. Franzi o olho, estranhei, terei ouvido mal: pensei. O dia correu e ela repetiu-a, uma e outra vez. Ela diz, mesmo, preciso, à sua maneira: peciso. Era hora do almoço e sentamo-nos à mesa, com a distribuição habitual: mamã de um lado, papá do outro, menina no meio. Ela costuma ter muitas manifestações de carinho à mesa; toca-nos as mãos ou põe as suas nos nossos ombros – a mão direita no ombro esquerdo da mamã e a mão esquerda no ombro direito do papá – e sorri. Nesse dia, enquanto o fez, olhou: ora nos nossos olhos, ora para baixo (como quem sabe que está prestes a fazer algo especial), e disse: ‘Peciso de ti’.

Preciso de ti. Ela, pequenina no tamanho e tão grande – tão grande – nas palavras que soltou. E eu, que sei que precisamos tanto uns dos outros (e tão pouco de tantas coisas); eu, que não acredito em felicidade sem o outro, sem partilha, sem amor, fui às lágrimas. Ele comigo, os dois com lágrimas que nos passeavam pelo rosto, demos (a três) um abraço forte e devolvemos aquele precioso: preciso de ti; acrescentamos: muito; acrescentamos: tanto; acrescentamos: sempre. E deixamo-nos morar nesse abraço, com o coração quase a saltar-nos do peito, suspenso na surpresa, na alegria e na responsabilidade que as suas palavras colocam nos mesmos ombros que as suas mãos tocam enquanto as diz (uma responsabilidade que sabemos – e queremos – nossa, mas que não imaginávamos dita por ela: não já, não tão cedo, não tão certa).

Ela sabe-o e disse-o, agora, quando o número de palavras que tem é ainda reduzido, e eu ganho o desejo de a ver crescer continuando a dizê-lo assim, de forma simples, sem filtros, sem receios. Quero que saiba que pode olhar-nos nos olhos e dizer: preciso de ti, na certeza de que a ouviremos atentos e reforçaremos a coragem que há em dizer a alguém que precisamos (de si). Na certeza de que este(s) preciso de ti ser(ão), lá na frente, bem diferente(s) mas que a segurança se constrói neste confiar de necessidades e na liberdade de as dizer, de as partilhar.

E ela trouxe estas palavras consigo, pô-las na mala que não pesa e só ela sabe abrir. E hoje andaram com ela na ponta da língua, fê-las, generosamente, chegar aos ouvidos do avô e da avó: peciso de ti (disse ela); peciso de ti (repetiu ela) e eu sei que eles precisavam tanto de o ouvir que foi em lágrimas (que tentaram disfarçar) e sorrisos (que não conseguiram disfarçar) que o receberam.

Este ‘preciso de ti’, dela, repete-se facilmente pela casa, nas seis vozes adultas que temos, e eu sorrio ao ver adultos dizerem assim, de forma tão fácil e leve, que precisam uns dos outros. É ela – de novo – a ensinar-nos.

Eu, gosto de ficar quietinha a vê-los nesta troca de amor, de avós e neta; de tios e sobrinha. Deixo-me ficar no silêncio que mais gosto: o que testemunha a construção da felicidade nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, nas palavras simples, nas brincadeiras dela e dos avós: onde jogam ao pião (joelhos no chão) com rolhas de cortiça que fazem girar; ou contam histórias inventadas a partir das imagens que os livros oferecem, enquanto o João pestana não chega. E tenho dedicado uma parte dos dias a este silêncio cheio (nos intervalos das gargalhadas que juntos multiplicamos) em que os vejo brincar, sem interferir, tendo o registo (também silencioso) como cúmplice. E nesta quietude que me faz vibrar, começo a ver tanto deles nela e sei (sei bem) que tanto deles é para ela.

 

Menina Mundo


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5 thoughts on “Preciso de ti (na sua voz pequenina)

  • Anabela Magalhães

    Não sei se comente ou se me reduza ao meu silêncio que se juntará ao teu! É lindo essa forma de transmitir coisas que nos fazem encher o coração de amor, de orgulho e de satisfação! Sabermos que nós conseguimos que aquilo acontecesse! Sim porque são vocês que a ensinam, de um forma tão bela, que as pessoas precisam umas das outras! Ela verbalizar essa palavras é porque já as ouviu dizer entre vocês ou porque já as sentiu. Adoro esse crescimento dela que tu partilhas connosco de uma forma tão envolvente! Consigo, também eu, vê-la crescer! Preciso de todos vocês! Beijo cheio de amor para os três. PRECISO DE VOCÊS!

    • Mamã-Mundo Post author

      Ohhh pahh! Também preciso(amos) tanto de ti, muito, sempre :). É ela a crescer em palavras e eu em lágrimas felizes, de tanta emoção partilhada. Sei essa responsabilidade e, por isso, ao vê-la crescer assim, cresço em orgulho e felicidade. Diz o papá da Menina Mundo que, de tudo aquilo para o que nasci, ver-me ser mãe é ver (-me) natureza. Acho que diz tudo o que posso desejar ser, enquanto mãe.

  • Joana

    Devia aqui um feedback….neste em particular…….
    Sabes, estas verbalizações só são possíveis num ambiente de confiança. Só nos expomos se nos sentirmos em segurança – “preciso de ti”, e tu bem sabes, é muito poderoso…..dizer isso dá ao ouvinte muito poder – logo, tenho que estar segura de que vai respeitar sublimemente essa partilha.
    A Mia denota já a maturidade que a segurança que vocês lhe transmitem – seja em que continente for – imprime. Parabéns….keep up the good work!

    • Mamã-Mundo Post author

      Sei bem, e sei bem o quanto tu o percebes. Por isso, este é dos maiores elogios que me(nos) poderias ter feito enquanto mãe(pais). E há ainda quem confunda estabilidade e segurança com uma espécie de resquício delas, uma estabilidade e segurança de trazer pelo bolso. Um dia escrevo esse texto!Um beijo, desta casa, que também é tua 🙂